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Aposta em oliveiras ganha força no Sul

A partir do pequeno município de Caçapava do Sul, a 269 quilômetros a sudoeste de Porto Alegre, o Rio Grande do Sul começa a dar os primeiros passos para tentar substituir parte das importações brasileiras de azeite de oliva - que só no ano passado alcançaram 17,1 milhões de litros e custaram US$ 66,5 milhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). O mercado nacional é abastecido por fornecedores externos - 90% das compras vêm de Argentina, Espanha e Portugal -, e em cinco anos os gaúchos querem produzir pelo menos 100 mil litros por ano. A estimativa inicial é modesta mas as projeções de ganhos são suculentas. Conforme o agrônomo da Emater-RS em Caçapava do Sul, Dagoberto Conti, o custo de produção da cultura está em torno de R$ 6,5 mil por hectare. Como a Associação dos Olivicultores da cidade, constituída no ano passado, planeja implantar uma pequena unidade industrial de extração de óleo, o rendimento bruto dos produtores pode chegar a R$ 30 mil por hectare a partir do quinto ou sexto ano, calcula a vice-presidente da entidade, Diaine Teixeira Dias. O cálculo leva em conta os preços do azeite de oliva no mercado brasileiro e a produtividade, prevista em 5 toneladas de azeitonas e mil litros de óleo por hectare a partir do quarto ou quinto ano de plantio. Na Espanha, país de onde foram trazidas as primeiras mudas plantadas no Estado, o rendimento chega a 17 toneladas por hectare, de acordo com Conti. Segundo ele, 5 quilos da fruta produzem 1 litro de azeite. O plantio de oliveiras em Caçapava começou em 2001, pelas mãos de alguns poucos produtores. Hoje há mais de 80 inscritos na associação, dos quais 43 efetivamente já desenvolvem a cultura, informa Diaine. A área plantada ainda é pequena, de 18 hectares - onde estão plantadas 9 mil mudas -, mas até dezembro alcançará 102 hectares e 51 mil árvores, uma meta que havia sido traçada preliminarmente para daqui a cinco anos. As novas plantas estão chegando neste mês e em novembro da Espanha, onde custam 2 euros cada uma. A própria Diaine plantou, no ano passado, 400 mudas em um dos 45 hectares de sua propriedade. Agora adquiriu mais 4 mil plantas que ocuparão outros 8 hectares até então dedicados ao cultivo de milho e pastagens. Segundo ela, a área tende a aumentar nos próximos anos, com o reinvestimento dos lucros obtidos com a cultura. Em seus cálculos, cada hectare plantado gera de sete a oito empregos temporários nos períodos de poda e colheita das azeitonas. "Estamos plantando as oliveiras porque pensamos no futuro e porque precisamos diversificar", diz o produtor Clairton Godinho. Em dezembro passado ele já comprou 300 mudas, e nesses dias está recebendo mais 3,7 mil de um novo lote importado da Espanha. Com isso, a cultura vai ocupar 8 dos 176 hectares onde Clairton, o pai, a mãe e a esposa cultivam soja, trigo, milho, aveia, azevém e pastagens. "E no ano que vem vamos comprar mais algumas plantas", planeja. Conforme Conti, os produtores gaúchos estão assumindo o risco de apostar numa cultura sobre a qual praticamente não há pesquisa no Brasil, e por isso as estimativas atuais são conservadoras. "Estamos trabalhando com prudência". Ele embarca no fim do mês para um curso de 40 dias sobre olivicultura no Instituto de Pesquisas e Formação Agrária e Pesqueira da Espanha, mas Diaine já considera a atividade como uma "moeda de ouro" para o futuro da região, cuja economia depende da produção de gado, soja, milho, trigo e arroz. Além da Emater-RS e da associação de produtores, a introdução das oliveiras para produção comercial envolve a Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/RS) e a prefeitura de Caçapava. A Embrapa Clima Temperado, de Pelotas, também participa. Segundo o pesquisador Enilton Coutinho, da Embrapa, há registros da cultura no Sudeste do país na época do Brasil colônia, e no Rio Grande do Sul no fim dos anos 60, mas ela não prosperou. Primeiro, por ordem da Coroa portuguesa; depois, pela falta de adaptação das plantas trazidas da Argentina. Com o apoio da Câmara de Comércio Brasil-Portugal e do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, a Embrapa está conduzindo testes com 15 variedades de oliveiras em oito municípios gaúchos e catarinenses. Segundo Coutinho, que coordena o projeto, o clima do Sul se assemelha ao das áreas produtoras européias e é favorável à cultura, que floresce de setembro a novembro e não se dá bem com longos períodos quentes e úmidos. A colheita é em fevereiro e março e as árvores começam a produzir no quarto ano, mas atingem o ápice em torno do vigésimo. O banco de mudas da Embrapa tem cultivares trazidos de Portugal, Espanha, Itália e Uruguai e os resultados dos testes de adaptação vão orientar programas de financiamento que já começam a ser preparados pela Caixa RS Agência de Fomento, uma instituição de crédito vinculada ao governo gaúcho. Segundo Coutinho, levantamentos preliminares para a implantação de unidades de extração de óleo indicaram que os equipamentos necessários para prensar 3,5 toneladas de azeitonas por dia (que rendem 700 litros de óleo) custam cerca de R$ 40 mil. O problema é que a prensagem das azeitonas deve ocorrer até 12 horas após a colheita para não comprometer a qualidade, o que pode exigir um investimento relativamente elevado mesmo para os níveis de produção previstos inicialmente em Caçapava. Ressalta o prefeito José Erli Vargas - ele próprio um adepto da cultura, com 1,5 hectare plantado - que a atividade tem importância estratégica para a cidade e que a prefeitura se dispõe a colaborar com a construção da fábrica. O município já ajuda na preparação do solo das propriedades com o aluguel subsidiado de tratores e também no transporte de insumos, segundo ele.
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