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Cafeicultura se arma para boa fase de preços

Dos cafezais retratados pelo pintor Cândido Portinari, filho de imigrantes italianos que trabalhavam em fazendas paulistas de café, sobram apenas lembranças de uma cultura que ajudou a alavancar a economia do Brasil no início do Século XIX. Hoje o quadro é outro. Grande parte dos cafezais migrou de São Paulo e do Paraná para Minas Gerais, atualmente o maior Estado produtor do país, e os apanhadores de café, pincelados com maestria por Portinari, cedem cada vez mais espaço para as máquinas. É um caminho sem volta, quase o único depois da última grande crise dos preços internacionais, há cerca de cinco anos. Com maior produtividade por hectare em uma área plantada menor, os cafeicultores brasileiros começam a colher o resultado de investimentos em tecnologias aplicadas "da porteira para dentro". Para esta safra, a 2006/07, estimada em 41 milhões de sacas de 60 quilos, em média, os cafezais ocupam uma área de 2,13 milhões de hectares no país, 29% menos que em 1990, quando o plantio de café ocupava 3 milhões de hectares. A produtividade média está estimada em quase 20 sacas por hectare, um crescimento de 35% se comparado à safra 2001/02. Mas o rendimento pode ser maior dependendo da região produtora. Atualmente o oeste baiano e o cerrado mineiro estão entre as mais produtivas do Brasil. O avanço da mecanização da colheita nos cafezais, que já supera 50% da área plantada nacional, também dá mostras de que o setor produtivo tem trabalhado para reduzir ao máximo seus custos. A mão-de-obra representa quase dois terços dos custos totais de colheita do café. Os investimentos nos cafezais foram freados no início desta década, em consequência da crise dos preços, mas voltaram a ser acelerados com a recuperação das cotações internacionais, sobretudo a partir de 2004. Somente nesta safra, o setor produtivo deverá comercializar cerca de 43 milhões de sacas de café em grão, com um faturamento de quase US$ 5 bilhões. A receita com exportações deve representar 60%, de acordo com levantamento realizado pelo Escritório Carvalhaes, com sede em Santos (SP). Após a retomada iniciada em 2004, as cotações do grão no mercado externo mantiveram-se em níveis atraentes, apesar de tropeços sazonais. Em Londres, que negocia o café robusta, de menor qualidade, os preços dos contratos de segunda posição acumulam aumento de 21,7% neste ano e de 35,7% em doze meses. Em Nova York, que negocia o tipo arábica, de maior qualidade - e o mais exportado pelo Brasil -, os preços dos contratos de segunda posição registram ligeira queda de 0,67% neste ano, mas têm alta de 7% em doze meses. No mercado interno, as cotações da saca de 60 quilos acumulam recuo de 4,9% neste ano e de 12,3% nos últimos doze meses. As perspectivas de preços são positivas pelo menos para os próximos dois anos, uma vez que há equilíbrio entre oferta e demanda global, segundo analistas ouvidos pelo Valor. A recuperação dos preços tem reflexo nos cafezais, que já recebem mais aportes embalados pelas boas perspectivas. Do período de "vacas magras", iniciado em 2001 e agravado no ano seguinte, quando a colheita brasileira foi recorde - 48,5 milhões de sacas, volume até hoje não superado -, os cafeicultores querem distância. "Os cafeicultores já conseguem pagar as suas contas e investem na reforma de seus cafezais", diz Ramon Olini Rocha, presidente da Associação dos Cafeicultores de Araguari (Aca), no cerrado mineiro. A Aca foi a primeira associação de cafeicultores fundada na metade da década de 1980 na região, depois da migração dos produtores paulistas e paranaenses para Minas Gerais . Hoje Minas responde por mais de 50% da produção nacional. O cerrado e o sul do Estado ganharam nos últimos anos destaque com a produção também de cafés especiais, cultivados em áreas com altitude média de 1.000 metros. Principalmente no cerrado o clima é extremamente favorável, por conta do período de seca durante a colheita - entre os meses de maio e agosto -, conforme Aguinaldo José de Lima, vice-presidente do Conselho das Associações dos Cafeicultores do Cerrado (Caccer). Lima faz parte de um grupo de migrantes que se instalou na região para apostar no café. Ex-dono de postos de gasolina em São Paulo, Lima desfez-se de seus negócios para comprar uma fazenda de café em Patrocínio, em Minas. Hoje também é sócio junto com outros 18 produtores da região de uma trading de café, a Cerrad Coffee do Brasil, que exporta café em grão para o Japão. "São só cafés certificados", diz. O cafeicultor Elmiro Resende Cunha lembra que foi um dos primeiros produtores a plantar café no cerrado mineiro. Nascido em Estrela do Sul (MG), Cunha mudou-se em 1954 para Monte Carmelo para tentar a vida como jogador de futebol. Enquanto jogava futebol no extinto Clube dos Cem, decidiu comprar uma fábrica de sabão, que mantém até hoje. Na metade da década de 1960, Cunha pendurou suas chuteiras. Mas seu chute certeiro foi dado mesmo no início dos anos 70, quando decidiu entrar no campo do café. O ex-jogador começou a plantar café na região antes mesmo do movimento migratório provocado pelas geadas no Paraná. Nesta safra, Cunha deve colher cerca de 4 mil sacas. Olini, presidente da Aca, faz parte da segunda geração de paranaenses que migraram para Minas Gerais. "Minha família decidiu sair de Pérola depois que a nematóide atingiu as lavouras de café da região paranaense", conta. A família Olini tem cafezais em Araguari, Araxá e Patrocínio, todas na região do cerrado.
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