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Pesquisa do IAC identifica vírus que reduz o tamanho das flores de hortênsias azuis

Por Carla Gomes As belas plantas da hortênsia azul já não estavam tão admiráveis – o tamanho reduzido das flores e as manchas nas folhas depreciavam o produto no mercado. Para piorar, o número de mudas vinha caindo ano a ano. E os produtores desconheciam a causa do problema. Em busca de solução, enviaram amostras de hortênsias ao Instituto Agronômico (IAC), em Campinas, que após quatro anos de pesquisa identificou o vírus causador das perdas e gerou uma resposta para os floricultores: o IAC fez a “limpeza” da variedade chamada “Renat Blue”, a principal no mercado, obtendo matrizes (plantas que dão origem às mudas) isentas do vírus, denominado cientificamente Hydrangea ringspot virus, também chamado de mancha anelar da hortênsia. É a primeira vez que esse vírus é estudado no Brasil e a caracterização dos seus genes ajudou a associar os sintomas das plantas às descrições da literatura. O atestado de isenção desse vírus será entregue aos floricultores no próximo dia 18 de novembro, às 14h, em Arujá, região que produz 80% das hortênsias de vaso no Estado de São Paulo. O evento — que registrará a liberação de dez matrizes isentas do Hydrangea ringspot virus — será na Aflord (Associação dos Floricultores da Região da Via Dutra), que reúne 84 produtores de plantas ornamentais, dentre eles os principais de hortênsias do Estado de São Paulo. “O resultado é inédito no Brasil, principalmente na parte de obtenção de planta sem vírus”, diz Valdir Atsushi Yuki, pesquisador do IAC, órgão da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento. O IAC recebeu as amostras da Aflord em 2004. Naquele momento, 100% das matrizes estavam contaminadas. Segundo a Associação, a quantidade de mudas de hortênsias vinha caindo, problema chamado degenerescência da planta. Esse efeito, observado há cerca de seis anos, agravava ainda mais a já existente carência de mudas no mercado de hortênsias. Também em queda estava a qualidade do produto final para o consumidor, já que o vírus reduz o tamanho da flor e mancha as folhas. E o preço cai juntamente com qualidade. A hortênsia em vaso custa para o consumidor cerca de R$ 9,00 o vaso de 15cm de diâmetro. Por se tratar de vírus novo no País, a ocorrência de patógeno exótico foi comunicada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Nesse trabalho, são parceiros do IAC, além da Aflord, a Unesp Botucatu e o Instituto Biológico, outro órgão da APTA e da Secretaria de Agricultura. “O resultado mostra a importância da interação entre o setor produtivo e a pesquisa”, considera Yuki. “Ações isoladas de produtores, sobretudo os pequenos, não conseguem mudar uma realidade, por isso valorizamos parcerias e formação de grupos, em todos os sentidos”, diz Silvia Kato, da Aflord. A Associação, que tem um grupo composto por sete produtores de hortênsias em vaso, procurou pelo IAC para fazer a diagnose. “Precisávamos resolver o problema do produtor”, diz o pesquisador do IAC. Ele conta que tentaram obter mudas sadias na Holanda, onde há grande produção de hortênsias. Sem sucesso na tentativa junto ao exterior, o pesquisador dedicou-se ao trabalho de “limpeza” da planta, a fim de obter ao menos uma planta sadia. Por meio da técnica de termoterapia, feita no IAC, e de cultura de tecidos, realizada na Aflord, os resultados chegaram em dois anos: em 2006, foram obtidas várias plantas. De lá para cá, foram feitos testes para confirmar a sanidade do material obtido. Dez plantas isentas de vírus foram confirmadas. Estas são as matrizes básicas e, a partir delas, é feita a multiplicação de mudas. Dessas dez plantas isentas serão originadas todas as mudas dos produtores, sendo que apenas um deles produz 20 mil. O pesquisador do IAC conta que orienta constantemente os produtores, cuja ação é fundamental no sentido de preservar a sanidade das plantas, que podem se contaminar novamente, caso não sejam adotadas as medidas corretas de manejo. Por exemplo, o cuidado no corte de mudas, já que a tesoura pode transmitir o vírus, que é bastante específico de hortênsias. Os cuidados com as estufas também são essenciais e nesse caso recomenda-se a proibição de entrada de estranhos. “Explico para eles que o valor de uma planta sadia é incalculável já que dela depende toda a produção”, diz o pesquisador. O vírus identificado está disseminado em todas as regiões produtoras de hortênsias, inclusive no Japão e na Alemanha, os principais países nesse segmento. O virologista do IAC explica que vírus não tem cura, não há controle químico a ser feito, mas que a planta convive com o problema, apesar das perdas de desempenho. Expansão do negócio a partir do resultado científico A obtenção de plantas isentas de vírus é uma condição para a expansão do cultivo, segundo o técnico do grupo de hortênsias, Sílvio Gondo. “Antes de vender para outras regiões era preciso “limpar” as plantas”, diz. Segundo Gondo, os sete produtores de hortênsias, responsáveis pela produção das mudas que utilizam, estão bastante animados com o resultado da pesquisa e já estão construindo uma nova estufa para colocar as mudas isentas de vírus. Com esse material sadio, o grupo de produtores pretende ampliar a produção e vender mudas e flores para outros Estados brasileiros. A região de Arujá, Mogi das Cruzes e Guararema — responsável por cerca de 80% das hortênsias em vasos no Estado de São Paulo — ocupa a terceira posição dentre as principais produtoras de flores, movimentando R$ 69 milhões por ano. O Estado todo responde por 70% da floricultura brasileira e movimenta em torno de R$ 460 milhões, segundo a Câmara Setorial de Flores e Plantas Ornamentais. Nesse cenário da floricultura, setor apontado como carente de pesquisas, destaca-se a contribuição desse resultado científico, que vem trazer uma solução ao negócio desses produtores. Vale ressaltar que para esses produtores e para as pessoas que trabalham com eles, a renda e o sustento das famílias envolvidas dependem das hortênsias. A floricultura pode ser um segmento pequeno em meio às proporções do agronegócio, mas quem está nessa área destaca: os empregos daqueles que trabalham com flores são permanentes e não sazonais, como ocorrem nas safras de café e cana-de-açúcar, por exemplo. “Se olharmos a participação hortênsia dentro da economia, ela é pequena, mas é muito importante para os produtores. Resolvemos um problema grave para eles”, avalia o pesquisador Yuki. De acordo com o virologista do IAC, os estudos terão continuidade com o objetivo de identificar novas formas de contágio do vírus. A ciência se movimenta de novos questionamentos. E neste caso o pesquisador quer saber se o manuseio com as mãos pode contaminar as plantas, por exemplo. “Sempre partimos da experiência de alcançar o resultado e da persistência em conseguir resolver o problema do produtor”, diz. Entenda os procedimentos da pesquisa: Em razão de os testes efetuados pelos pesquisadores do Instituto Agronômico, Instituto Biológico e Unesp Botucatu terem apresentado resultado positivo para todas as amostras da variedade “Renat Blue” e da presença de sintomas generalizados em todas as plantas matrizes, concluiu-se que não havia plantas sadias disponíveis. Observando o comportamento das hortênsias, os pesquisadores notaram que 90% das ocorrências presentes nas plantas constavam também em bibliografia sobre a cultura. Como havia a necessidade de obter material isento do vírus e frente à queda na produção de mudas das matrizes, iniciaram-se estudos para obtenção de plantas livres do vírus. Os caminhos adotados foram a termoterapia e o cultivo de meristemas. Termoterapia – feita no IAC, em Campinas: Plantas da variedade “Renat Blue”, utilizadas como matrizes, foram colocadas na câmara de termoterapia, inicialmente regulada para uma temperatura de 34OC, por sete dias, para a adaptação a temperaturas mais altas. Passado esse tempo, a temperatura foi sendo elevada gradativamente 1oC, a cada 4 - 5 dias, até atingir 37oC. A variação da temperatura na câmara era de mais ou menos 1oC. As plantas foram mantidas de dois a quatro meses, tempo esse em que já se encontravam bastante debilitadas, mas suficientes para se retirar os meristemas. Cultura de tecidos – feita na Aflord, Arujá: Após a desinfestação de brotos terminais ou laterais, de plantas que passaram ou não por termoterapia, os meristemas com cerca de 5 mm foram inoculados em meio de cultura e, mantidos a uma temperatura de 26oC e fotoperíodo de 16 horas. A cada 45 dias, aproximadamente, os meios cujos meristemas apresentavam regeneração e não apresentavam contaminações foram repicados e enraizados em outro meio de cultura. Com a apresentação de bom enraizamento, foram plantadas em substrato comercial sob ambiente de alta umidade até a sua aclimatação. Após esse período, as mudas foram transplantadas para vasos maiores, onde permaneceram em observação, por um período de dois anos. Nesse período foram realizados dois testes – biológico e molecular -, eliminando-se as plantas que apresentaram resultados positivos em pelo menos um dos testes. Ao final do trabalho resultaram dez plantas consideradas isentas do vírus Hydrangea ringspot, sendo seis obtidas de planta não submetida à termoterapia e quatro originadas de planta submetida à termoterapia. Essas plantas já floresceram uma vez e como não foram observadas modificações na estrutura floral, foram consideradas aptas para serem utilizadas como matrizes básicas isentas do vírus. Serviço: Entrega de atestado de sanidade da variedade “Renat Blue” isenta do Hydrangea ringspot virus Data: 18 de novembro de 2008, às 14h Local: Aflord - Av. PL do Brasil, km 4,5 bairro Fazenda Velha, Arujá, SP. Assessoria de Comunicação da APTA 11 5067-0424 (José Venâncio) Assessoria de Imprensa do IAC 19 3231-5422, ramal 124 (Carla Gomes)
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