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São Paulo: frigoríficos avançam nos mercados sofisticados

As empresas buscam a diversificação de mercados e uma segurança contra eventuais embargos sanitários, como os que abalam o Brasil devido à febre aftosa. Mas, além disso, há fatores comerciais muito atraentes para os frigoríficos brasileiros. A Argentina e o Uruguai têm condições sanitárias que permitem a venda de carne bovina in natura para os Estados Unidos, o maior importador mundial de carnes. “Além de comprar muito, os Estados Unidos pagam preços mais altos pela carne”, ressalta o analista de mercado da Scot Consultoria, Fabiano Tito Rosa. Para o mercado europeu, a Argentina é favorecida com uma cota Hilton de 28 mil toneladas (t)ao ano, ante 5 mil t do Brasil. As carnes desossadas, de cortes nobres, exportadas para a União Européia dentro dessa cota não sofrem taxa de importação, o que torna o produto mais competitivo e aumenta as margens do exportador. Tito Rosa acrescenta que os países vizinhos criam gado de raças européias, tidas no mercado internacional como de maior qualidade que o gado zebu brasileiro. “A Argentina e mais ainda o Uruguai têm fama de fornecer carnes de boa qualidade, até por estarem há mais tempo que o Brasil no mercado mundial de carne”, recorda ele. As carnes de raças como angus e red angus possuem características diferenciadas, como a gordura entremeada, o que garante maior maciez. No Brasil, apenas o Rio Grande do Sul produz raças européias com sucesso. Nos demais estados reina o gado zebu, como o nelore, adaptado às condições tropicais. A carne do gado de origem européia tem aceitação melhor nos mercados importadores, especialmente nos países frios, onde esse tipo de animal é criado. Exatamente por isso, o Friboi, maior frigorífico brasileiro, planeja abrir uma unidade em São Borja, na região de fronteira do Rio Grande do Sul. A empresa não confirma o investimento, mas reconhece que as negociações estão em andamento. “Oferecer carnes de raças européias é definitivamente um bom negócio para os frigoríficos brasileiros, pois amplia o portfólio e abre mercados”, avalia Tito Rosa, da Scot. O Friboi foi o primeiro frigorífico brasileiro a internacionalizar a produção, com a aquisição do argentino Swift em setembro do ano passado. Na semana passada, o grupo anunciou a expansão de sua produção na Argentina de mil para 1,5 mil abates diários, com a compra de uma unidade da falida Companhia Elaboradora de Produtos Alimentícios (Cepa) por US$ 16 milhões. Sanidade abre mercados Outro grande grupo nacional que está estendendo braços na América do Sul é o Bertin. Em agosto, o grupo adquiriu o uruguaio Canelones, por US$ 35 milhões. A unidade abate em média mil animais por dia e destina carne in natura para os Estados Unidos e o Canadá, locais onde o Brasil ainda não consegue ter penetração com esses produtos por restrições sanitárias. “Este foi um dos principais motivos da política de investimento do grupo”, conta Marco Bicchieri, diretor de exportação da Divisão de Alimentos do Grupo Bertin. A aposta do Bertin é que as condições sanitárias do país vizinho permitam em breve a liberação para exportar carne in natura para a Coréia do Sul, o que abriria um grande mercado ao grupo. Por enquanto, a planta uruguaia exporta apenas carne industrializada ao país da Ásia. “O Uruguai tem um rebanho de qualidade, um bom sistema sanitário e a vantagem de estar habilitado a exportar para outros mercados, ampliando o leque de possibilidades de negócios”, explica Bicchieri. Internacionalização em alta Para o analista da Scot, o movimento de internacionalização deve continuar. Em outubro entrou nesse processo o Marfrig, que comprou o parceiro Tacuarembó, do Uruguai. O frigorífico está também negociando a compra do Argentine Breeders and Packers (AB&P), da Argentina. No mês passado, o Bertin realizou com sucesso uma captação externa de US$ 250 milhões, com prazo de dez anos. No Brasil, possui seis plantas frigoríficas e ao todo 20 unidades, incluindo as divisões de biodiesel, higiene e limpeza, couro e cosméticos. Além de Argentina e Uruguai, que começam a se tornar tradicionais nos planos de expansão dos frigoríficos brasileiros, o Paraguai também deve entrar nos interesses do setor. “O Paraguai é atrativo, pois é considerado pela Organização Internacional de Saúde Animal (OIE) como zona livre de BSE, doença que assusta os países importadores”, constata Tito Rosa. O próprio Bertin estaria negociando a compra da Industria Paraguaya Frigorifica SA (IPFSA), porém a empresa afirma tratar-se apenas de especulação. Segurança de fornecimento Mas o analista avalia que o interesse dos frigoríficos em produzir em outros países não está só em abrir mercados, mas também em garantir lucros e oferecer segurança de fornecimento aos clientes mundiais. Caso um dos países em que a companhia produz sofre embargos sanitários, os frigoríficos têm como honrar contratos e se manter no azul vendendo a carne de outras origens, que não foram bloqueadas. Essa política já foi aplicada com sucesso pelo setor no Brasil com a ocorrência de focos de febre aftosa no Paraná e no Mato Grosso do Sul. Diversos países barraram a entrada de carnes desses estados e de estados limítrofes aos focos, mas os frigoríficos nacionais redirecionaram a produção desses locais para o mercado interno. Para o diretor executivo da Abiec (Associação dos Exportadores de Carne), Antonio Camardelli, o País conseguiu contornar, depois de muitas conversações, os problemas causados pelos embargos. (fonte: DCI)
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